Buarque (Agora Era Fatal)

Abril 29, 2008

There will be blood

Arquivado em: cinema — buarque @ 8:26 pm

A aniquilação da juventude, infeliz tema das páginas policiais brasileiras atuais, é também o leitmotif de Daniel Plainview. Em There Will Be Blood, tudo que brota, Daniel (Day-)Plainview explora ou aniquila. Não importa se é o petróleo, fruto da terra, ou se é H.W., fruto do seu próprio ventre. Talvez resida em cada um de nós um edifício London, expelindo jovialidade e defenestrando inocências. A obra-prima de Anderson não é um depositário, é sim um espelho para nosso aufklärung. E ao mirar nossa alma, que reflexo vemos: a normalidade ou a nardonidade?

Agosto 7, 2007

O Segredo

Arquivado em: literatura — buarque @ 5:41 pm

(de Rhonda Byrne, Ediouro, 198 pg., R$ 39,90)

Muito já se debateu sobre o livro “O Segredo”, de Rhonda Byrne. A mídia, ávida mídia, primeiro colocou a obra sobre um palco, depois no banco dos réus e agora no leprosário. Nas rodas intelectualóides, ao menos, a suposta inteligentzia galhofa do fenômeno editorial, considerado o mais recente capítulo da Grande História do Charlatanismo. Mas será mesmo?

“O Segredo” é um caleidoscópio, um espelho quebrado de depoimentos e teorias. Que, no entanto, ganha foco sob o prisma pós-moderno. Se Byrne (australiana, audiovisual, autora) e sua Lei da Atração dizem que tudo possível, então nada posso. Se é real o sonho, não me assanho. Se o agora é utopia, não topo. Reside aí a ilusão de ótica do best-seller: recorrer à auto-ajuda é socorrer a si mesmo, e o resto que se forre.

Cartas de Iwo Jima

Arquivado em: cinema — buarque @ 4:29 pm

Banzai! - ou, em língua portuguesa: Dez mil anos! Todo homem é uma ilha. Os biônicos nipônicos de “Cartas de Iwo Jima” (Clint Eastwood, 2006) são o Japão. Ao retratar essa peculiar batalha da Campanha do Pacífico do ponto de vista do povo do sol nascente, o diretor de “Bronco Billy” (1980) nos força a revisitar nossos conceitos de honra e perseverança. Para o culto e compassivo general Tadamichi Kuribayashi, não há distinção entre a alma da pátria e o solo do indivíduo. Morrer pelo Império é dissolver-se novamente em sua sacralidade totalizante, uma transubstanciação tão sedutora que a própria sobrevivência, ainda que acidental, é que torna-se desonrosa. Enquanto a fragilidade do humano se revela nas recordações afetivas e na escritura de cartas que nunca serão entregues, a tenacidade sobre-humana ganha contornos palpáveis no enfrentamento de bombas e desinterias. A guerra é maravilhosa. Pena que morre gente.

Agosto 6, 2007

MTV Acústico Lenine

Arquivado em: música — buarque @ 3:05 pm

Em uma época de expiração dos inspirados mestres - au revoir, Bergman - é curioso que surja em meio à decadence da Música Popular Brasileira o sucessor direto dos ensinamentos do mestre Antonioni.

Desassossego, abandonamento, é no cancioneiro de Lenine que está traduzida a tristesse moderna, epidemia que Antonioni clinicamente diagnosticou e cinicamente retratou.

Como o fazedor de sonhos italiano, Lenine passou anos marginalizando a mesma indústria que o desfabricou. Agora, neste MTV Acústico, Lenine abrasileirou o jabá; jabuticabou. Alheio ao dinheiro e à fama, Lenine usa sua verve benjameniana para reempacotar a malaise frankfurtiana e revendê-la à própria indústria cultural que tanto critica. Dolores. Dólares.

Agosto 3, 2007

Pecados Íntimos

Arquivado em: cinema — buarque @ 8:31 pm

Crianças, crianças, crianças. Em “Pecados Íntimos” (2006, de Todd Field) elas estão por toda a parte: nos playgrounds e escolas, nas piscinas públicas e espaços privados, mas sobretudo no âmago dos adultos que debatem-se em desespero ante a contingência sartreana. Sarah (Kate Winslet, quintessencial) e Brad aproximam-se no desempenhar do cuidado pat(mat)erno, mas eles mesmos são infantes aprisionados na imatura realidade de seus eus adultos. Daí o sexo selvagem sobre a máquina de lavar, e dele o vislumbre da transcendência. Mas mesmo o pedófilo Ronnie, com suas pupilas de Sinatra, títere de avassalador transtorno psicossexual, sabe que qualquer fuga é vã. Urge engendrar a transformação no aqui e no agora, na própria carne se necessário. O adulto não teme castrar em si o que o castra.

Julho 31, 2007

Nome de Família

Arquivado em: cinema — buarque @ 11:05 pm

The Namesake, EUA/Índia, 2006

O lar é onde o coração está. Nova York, Paris, Milão ou Jacarta. Não importa: somos de onde viemos, e vamos para onde projetamos. A família, bem maior conjecturado, recebe uma homenagem contagiante nesta fita bengali. Há maneiras de não se contagiar pelo tesouro-mor proveniente do amor sem fronteiras, a todos os semelhantes?

Cock & Bull

Arquivado em: literatura — buarque @ 8:18 pm

Will Self. Vontade. Própria. Querer. Si mesmo. Como na masturbação, os segredos de Cock & Bull são revelados a cada suave toque do autor. Lentamente, a alegoria freudiana de Self penetra na psiquê de - escusem aqui meu gaulês rudimentar - caralhos e bucetas. Falta, no entanto, ao hermafroditismo tardio do autor nu um auto-sentido consciente da transcendência espaço-genital.

No despertar do devaneio, o autofágico phalos engole o gluteus maximus, a labia majora - pai e mãe homoeróticos da onisciência. O que resta é o menos do que a nudez. O felatio de Self é uma obra a ser lida e lidada com todos os dedos.

Ela É a Poderosa

Arquivado em: cinema — buarque @ 10:22 am

(Georgia Rule, EUA, 2007, 113 min. | dir. Garry Marshall)

Menina malvada, filha da dona-de-casa desesperada, aprende a ser mulher exilada no rancho da ex-barbarella. Três fêmeas, três arquétipos. Jane Fonda, a avó amazona; Felicity Huffman, provedora desprovida, carrasca de si mesma; Lindsay Lohan, rebelde sim, com causa e calças jeans. O embate dessaes dínamos femininos se dá no espaço público, um vilarejo na heartland de Bush, e no espaço privado, onde todas são máscara, todas são côro, tudo é tragédia. E a comédia, onde há de estar? Na superfície da estética hollywodiana vigésimoprimeirocentista. Mas por detrás dos cortes rápidos, cenas fugidias e panorâmicas exuberantes, sob a fartura material advinda do agribusiness, corre o arroio seco e árido do rancor das feras feridas.

Julho 30, 2007

O Hospedeiro

Arquivado em: cinema — buarque @ 11:47 pm

O bagre como metáfora da voracidade latente de todos nós. O devoramento randômico como signo do avanço inexorável de uma biotecnologia genética e, por que não?, anti-ética sobre o demasiado humano. Para fazer frente a tanta espetacularização hiper-real, nosso anti-herói, epítome de uma Coréia do pós-guerra ocidentalizada e oxigenada, precisa resgatar primeiramente a sua própria ferocidade, num processo pungente de desconstrução do sujeito e de seus referenciais, em pleno Hades cloacal. A partir daí, e com o resgate de um sentimento de uma tribalidade até então sublimada, tão bem representada pelo uso do arco e flecha autóctones, é que se inicia a reação. Contra o aldeído, a aldeia.

“Ga ga ga ga ga” (Spoon)

Arquivado em: música — buarque @ 7:48 pm

Em “Ga ga ga ga ga” (2007), Britt Daniel e sua trupe extraem o sumo do pop-rock e tranformam-no num menu-degustação de dez pratos simples servidos em porções pequenas, mas que em conjunto formam um banquete suntuoso. Ainda que seja exagero falar numa salada de ritmos, aqui a banda de Austin tempera o caldo roqueiro com pitadas de trompete, violão flamenco e bem dosadas traquinagens de estúdio, resultando em gemas como “You Got Your Cherry Bomb” e “Finer Feelings”. Indies sem perder o gingado, os rapazes do Spoon têm um cardápio para todos os gostos. Meta a colher. Para ouvir com: boa companhia e um prato fumegante de mocotó.

O cheiro do ralo

Arquivado em: cinema — buarque @ 7:48 pm

O galpão não existe. O escritório não existe. O clientes e o olho de vidro também. Não existem. O que existe é a mentira que o personagem de Selton Mello proclama para não deixar ser esquecida: “Esse cheiro não é meu. Vem do ralo aqui atrás”. Grossa e inútil justificativa. De ilusão em ilusão a trama se revela. Não existe o banheiro, mas existe o buraco. A bunda é uma surpreendente alegoria com a “preferência nacional”, sinal de que o diretor é mais um do ramo a tentar entender o Brasil. O ralo é o verdadeiro eu por trás da máscara do personagem. O buraco é o vazio de uma existência anônima e solitária numa metrópole moderna. O cheiro é aquilo que somos realmente.

Saneamento Básico, o Filme

Arquivado em: cinema — buarque @ 7:15 pm

Fossa. Verba. Vídeo. Ficção. Monstro e donzela. Orçamento e participação. Merda e quimera. Ítalo-gaúchos: atores globais. Figurino e fantasia. Sexo e micose. Pais (nossos) e filhos (da puta). O real e os dez mil reais. Roteiro do cotidiano. Direção do dia-a-dia. Edição da vida. Furtado não é roubado; cem anos de perdão.

Ratos e Homens (Ratatouille)

Arquivado em: cinema — buarque @ 6:34 pm

Chega ao grande ecrã “Ratatouille” (2007), nova animação de computação gráfica do realizador ianque Brad Bird. A premissa original (e se um rato se tornasse um grande chef?) é grávida de gêmeas múltiplas. E se o funcionário se tornasse patrão? O lúmpen se tornasse aristocracia? E se o Outro se tornasse o Igual? Não surpreende que a França, palco de tantas revoluções, seja cenário desta fábula em que um filho das sarjetas manipula um órfão burguês para atingir liberdade, igualdade e fraternidade. Sem embargo, a história do rato Remy é a história de todos que buscam. Logo, de todos que sonham. Logo, de todos nós.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

Arquivado em: cinema — buarque @ 6:20 pm

Bagdá ou Rio? Ex-soldados de Saddam ou atletas do Pan? Mouros ou louros? Não há como não ver no mais recente episódio da saga potteriana (salvo, é claro, se o espectador ainda for alvo fácil do “target-audience” juvenil) um caleidoscópio dos embates clássicos da alma travestidos em conflitos pós-modernos. Ou será o oposto?

Nas quadras militarizadas de Bagdá, nas quadras poli-esportivas do Rio, nas quadras de quadribol, o palco das angústias humanas se desfaz e é refeito a cada galope de um soberbo Radcliffe - cujas recentes aventuras eqüino-teatrais mereceriam um autêntico ouro pan-americano.

Everyman

Arquivado em: literatura — buarque @ 5:55 pm

Gera. Regenera. Já era. Quem dera fosse tão simples quanto queria Scandurra. Em “Everyman” (Houghton Mifflin, 2006), o autor judeu estadunidense Phillip Roth debruça-se sobre aquela que é a mais unificadora das experiências humanas: a morte. Obcecado com as moléstias do corpo, tanto as suas quanto as alheias, o protagonista sem nome enfrenta com sarcasmo e pragmatismo as agruras do cotidiano e os sobressaltos do seio familiar, irradiando perplexidade diante do inominável. Desde a primeira página, sabemos que ele morre. Mas quem não há de?

300

Arquivado em: cinema — buarque @ 5:38 pm

O tempo passa, mas também é ilusório – ensinou Albert Einstein. A vida se encaminha muitas vezes diluída nas questões da modernidade. Os parâmetros se desfazem, é difícil encontrar um norte. Questões antigas – democracia, soberania, liberdade, a afirmação dos valores de um povo – ressurgem diante das nações como o fizeram em outros tempos. A globalização a tudo confunde e exige respostas a novos e a antigos desafios. Talvez nem tão novos. Talvez os mesmos de sempre. A diferença fundamental é que a luta pela liberdade já não ocorre de dorso nu e tanguinha.

Maria

Arquivado em: cinema — buarque @ 5:37 pm

Donde emanam as transmutações mais perversas do ser, Abel Ferrara bebe. Do sagrado-profano inteiro (ir e vir), também. Por conta desse microcosmo cabal, nada mais natural do que extrair da Bíblia sua estória mais crucial.

“Maria” (2005), é o apogeu da substancialidade travestida de conforto. De um lado, uma atriz acuada (Juliette Binoche) que resolve buscar sua redenção espiritual. De outro,  um apresentador de tevê atormentado (Forrest Whitaker) com sua existência vulgar, que toma forma em um conflito envolvendo sua esposa grávida (Heather Graham) e a questão da fé. Numa posição aleatória deste triângulo isósceles, um diretor de cinema sem escrúpulos (Matthew Modine, excelente), que vai tentar impôr sua visão do milagre de Jesus de forma branda, porém contundente.

É o bastante para a formação de um pathos residual. Mímico do seu próprio desassossego, Ferrara explode uma miríade de significantes ali, bem em frente ao espectador. O que coletar deste manancial retórico é missão gloriosa que é transferida ao eu-observador.

Baixio das Bestas

Arquivado em: cinema — buarque @ 5:25 pm

O horror do abuso ou o abuso do horror? O caldo da cana é metáfora de secreções profanas na aridez ética da Terra Brasilis. Claudio Assis aborda a sevícia tupiniquim com deslumbramento adolescente em “Baixio das Bestas” (2006), mas nem a beleza plástica livra o autor e as personagens da cretinice moral. A fala “Traz a manteiga que hoje eu tô comendo é cu” ganha reverberação multifacetada em mais uma pungente interpretação de Nachtergaele, ao passo que a nudez massacrada das atrizes reinventa o conceito da masturbação misógina.

Regininha Poltergeist – Perigosa

Arquivado em: cinema — buarque @ 4:30 pm

A premissa de “Regininha Poltergeist – Perigosa” é que a realidade há tempos transmutou-se numa questão aparentemente simples e, contudo, nada fácil de responder: o que é o âmago? A história, apesar de se valer de parcos recursos dramáticos, não deixa de ser uma investigação filosófica. O diretor se abstém de questões mais complicadas, mas é inegável que a escolha de Kid Bengala como ator principal pressupõe, numa ironia certamente fácil, a intenção de ir fundo em algumas questões.

Scoop

Arquivado em: cinema — buarque @ 3:52 pm

Até onde irá a verve humana na criação cinematográfica? Woody Allen toma emprestada a beleza jovial e naïve de Scarlett Johansson para comprovar que é possível, sim, nos reinventarmos. Com a energia ninfal desta namporadinha do Brooklyn, o veterano desta vez se abstém de suas características alusões hebraicas. A trama flerta mais com os paradigmas dos romances policialescos britânicos e nos coloca o questionamento: vale a pena enganar a morte por um mero furo jornalístico?

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