Buarque (Agora Era Fatal)

Agosto 7, 2007

O Segredo

Arquivado em: literatura — buarque @ 5:41 pm

(de Rhonda Byrne, Ediouro, 198 pg., R$ 39,90)

Muito já se debateu sobre o livro “O Segredo”, de Rhonda Byrne. A mídia, ávida mídia, primeiro colocou a obra sobre um palco, depois no banco dos réus e agora no leprosário. Nas rodas intelectualóides, ao menos, a suposta inteligentzia galhofa do fenômeno editorial, considerado o mais recente capítulo da Grande História do Charlatanismo. Mas será mesmo?

“O Segredo” é um caleidoscópio, um espelho quebrado de depoimentos e teorias. Que, no entanto, ganha foco sob o prisma pós-moderno. Se Byrne (australiana, audiovisual, autora) e sua Lei da Atração dizem que tudo possível, então nada posso. Se é real o sonho, não me assanho. Se o agora é utopia, não topo. Reside aí a ilusão de ótica do best-seller: recorrer à auto-ajuda é socorrer a si mesmo, e o resto que se forre.

Cartas de Iwo Jima

Arquivado em: cinema — buarque @ 4:29 pm

Banzai! – ou, em língua portuguesa: Dez mil anos! Todo homem é uma ilha. Os biônicos nipônicos de “Cartas de Iwo Jima” (Clint Eastwood, 2006) são o Japão. Ao retratar essa peculiar batalha da Campanha do Pacífico do ponto de vista do povo do sol nascente, o diretor de “Bronco Billy” (1980) nos força a revisitar nossos conceitos de honra e perseverança. Para o culto e compassivo general Tadamichi Kuribayashi, não há distinção entre a alma da pátria e o solo do indivíduo. Morrer pelo Império é dissolver-se novamente em sua sacralidade totalizante, uma transubstanciação tão sedutora que a própria sobrevivência, ainda que acidental, é que torna-se desonrosa. Enquanto a fragilidade do humano se revela nas recordações afetivas e na escritura de cartas que nunca serão entregues, a tenacidade sobre-humana ganha contornos palpáveis no enfrentamento de bombas e desinterias. A guerra é maravilhosa. Pena que morre gente.

Agosto 6, 2007

MTV Acústico Lenine

Arquivado em: música — buarque @ 3:05 pm

Em uma época de expiração dos inspirados mestres – au revoir, Bergman – é curioso que surja em meio à decadence da Música Popular Brasileira o sucessor direto dos ensinamentos do mestre Antonioni.

Desassossego, abandonamento, é no cancioneiro de Lenine que está traduzida a tristesse moderna, epidemia que Antonioni clinicamente diagnosticou e cinicamente retratou.

Como o fazedor de sonhos italiano, Lenine passou anos marginalizando a mesma indústria que o desfabricou. Agora, neste MTV Acústico, Lenine abrasileirou o jabá; jabuticabou. Alheio ao dinheiro e à fama, Lenine usa sua verve benjameniana para reempacotar a malaise frankfurtiana e revendê-la à própria indústria cultural que tanto critica. Dolores. Dólares.

Agosto 3, 2007

Pecados Íntimos

Arquivado em: cinema — buarque @ 8:31 pm

Crianças, crianças, crianças. Em “Pecados Íntimos” (2006, de Todd Field) elas estão por toda a parte: nos playgrounds e escolas, nas piscinas públicas e espaços privados, mas sobretudo no âmago dos adultos que debatem-se em desespero ante a contingência sartreana. Sarah (Kate Winslet, quintessencial) e Brad aproximam-se no desempenhar do cuidado pat(mat)erno, mas eles mesmos são infantes aprisionados na imatura realidade de seus eus adultos. Daí o sexo selvagem sobre a máquina de lavar, e dele o vislumbre da transcendência. Mas mesmo o pedófilo Ronnie, com suas pupilas de Sinatra, títere de avassalador transtorno psicossexual, sabe que qualquer fuga é vã. Urge engendrar a transformação no aqui e no agora, na própria carne se necessário. O adulto não teme castrar em si o que o castra.

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