Buarque (Agora Era Fatal)

abril 29, 2008

There will be blood

Filed under: cinema — buarque @ 8:26 pm

A aniquilação da juventude, infeliz tema das páginas policiais brasileiras atuais, é também o leitmotif de Daniel Plainview. Em There Will Be Blood, tudo que brota, Daniel (Day-)Plainview explora ou aniquila. Não importa se é o petróleo, fruto da terra, ou se é H.W., fruto do seu próprio ventre. Talvez resida em cada um de nós um edifício London, expelindo jovialidade e defenestrando inocências. A obra-prima de Anderson não é um depositário, é sim um espelho para nosso aufklärung. E ao mirar nossa alma, que reflexo vemos: a normalidade ou a nardonidade?

agosto 7, 2007

Cartas de Iwo Jima

Filed under: cinema — buarque @ 4:29 pm

Banzai! – ou, em língua portuguesa: Dez mil anos! Todo homem é uma ilha. Os biônicos nipônicos de “Cartas de Iwo Jima” (Clint Eastwood, 2006) são o Japão. Ao retratar essa peculiar batalha da Campanha do Pacífico do ponto de vista do povo do sol nascente, o diretor de “Bronco Billy” (1980) nos força a revisitar nossos conceitos de honra e perseverança. Para o culto e compassivo general Tadamichi Kuribayashi, não há distinção entre a alma da pátria e o solo do indivíduo. Morrer pelo Império é dissolver-se novamente em sua sacralidade totalizante, uma transubstanciação tão sedutora que a própria sobrevivência, ainda que acidental, é que torna-se desonrosa. Enquanto a fragilidade do humano se revela nas recordações afetivas e na escritura de cartas que nunca serão entregues, a tenacidade sobre-humana ganha contornos palpáveis no enfrentamento de bombas e desinterias. A guerra é maravilhosa. Pena que morre gente.

agosto 3, 2007

Pecados Íntimos

Filed under: cinema — buarque @ 8:31 pm

Crianças, crianças, crianças. Em “Pecados Íntimos” (2006, de Todd Field) elas estão por toda a parte: nos playgrounds e escolas, nas piscinas públicas e espaços privados, mas sobretudo no âmago dos adultos que debatem-se em desespero ante a contingência sartreana. Sarah (Kate Winslet, quintessencial) e Brad aproximam-se no desempenhar do cuidado pat(mat)erno, mas eles mesmos são infantes aprisionados na imatura realidade de seus eus adultos. Daí o sexo selvagem sobre a máquina de lavar, e dele o vislumbre da transcendência. Mas mesmo o pedófilo Ronnie, com suas pupilas de Sinatra, títere de avassalador transtorno psicossexual, sabe que qualquer fuga é vã. Urge engendrar a transformação no aqui e no agora, na própria carne se necessário. O adulto não teme castrar em si o que o castra.

julho 31, 2007

Nome de Família

Filed under: cinema — buarque @ 11:05 pm

The Namesake, EUA/Índia, 2006

O lar é onde o coração está. Nova York, Paris, Milão ou Jacarta. Não importa: somos de onde viemos, e vamos para onde projetamos. A família, bem maior conjecturado, recebe uma homenagem contagiante nesta fita bengali. Há maneiras de não se contagiar pelo tesouro-mor proveniente do amor sem fronteiras, a todos os semelhantes?

Ela É a Poderosa

Filed under: cinema — buarque @ 10:22 am

(Georgia Rule, EUA, 2007, 113 min. | dir. Garry Marshall)

Menina malvada, filha da dona-de-casa desesperada, aprende a ser mulher exilada no rancho da ex-barbarella. Três fêmeas, três arquétipos. Jane Fonda, a avó amazona; Felicity Huffman, provedora desprovida, carrasca de si mesma; Lindsay Lohan, rebelde sim, com causa e calças jeans. O embate dessaes dínamos femininos se dá no espaço público, um vilarejo na heartland de Bush, e no espaço privado, onde todas são máscara, todas são côro, tudo é tragédia. E a comédia, onde há de estar? Na superfície da estética hollywodiana vigésimoprimeirocentista. Mas por detrás dos cortes rápidos, cenas fugidias e panorâmicas exuberantes, sob a fartura material advinda do agribusiness, corre o arroio seco e árido do rancor das feras feridas.

julho 30, 2007

O Hospedeiro

Filed under: cinema — buarque @ 11:47 pm

O bagre como metáfora da voracidade latente de todos nós. O devoramento randômico como signo do avanço inexorável de uma biotecnologia genética e, por que não?, anti-ética sobre o demasiado humano. Para fazer frente a tanta espetacularização hiper-real, nosso anti-herói, epítome de uma Coréia do pós-guerra ocidentalizada e oxigenada, precisa resgatar primeiramente a sua própria ferocidade, num processo pungente de desconstrução do sujeito e de seus referenciais, em pleno Hades cloacal. A partir daí, e com o resgate de um sentimento de uma tribalidade até então sublimada, tão bem representada pelo uso do arco e flecha autóctones, é que se inicia a reação. Contra o aldeído, a aldeia.

O cheiro do ralo

Filed under: cinema — buarque @ 7:48 pm

O galpão não existe. O escritório não existe. O clientes e o olho de vidro também. Não existem. O que existe é a mentira que o personagem de Selton Mello proclama para não deixar ser esquecida: “Esse cheiro não é meu. Vem do ralo aqui atrás”. Grossa e inútil justificativa. De ilusão em ilusão a trama se revela. Não existe o banheiro, mas existe o buraco. A bunda é uma surpreendente alegoria com a “preferência nacional”, sinal de que o diretor é mais um do ramo a tentar entender o Brasil. O ralo é o verdadeiro eu por trás da máscara do personagem. O buraco é o vazio de uma existência anônima e solitária numa metrópole moderna. O cheiro é aquilo que somos realmente.

Saneamento Básico, o Filme

Filed under: cinema — buarque @ 7:15 pm

Fossa. Verba. Vídeo. Ficção. Monstro e donzela. Orçamento e participação. Merda e quimera. Ítalo-gaúchos: atores globais. Figurino e fantasia. Sexo e micose. Pais (nossos) e filhos (da puta). O real e os dez mil reais. Roteiro do cotidiano. Direção do dia-a-dia. Edição da vida. Furtado não é roubado; cem anos de perdão.

Ratos e Homens (Ratatouille)

Filed under: cinema — buarque @ 6:34 pm

Chega ao grande ecrã “Ratatouille” (2007), nova animação de computação gráfica do realizador ianque Brad Bird. A premissa original (e se um rato se tornasse um grande chef?) é grávida de gêmeas múltiplas. E se o funcionário se tornasse patrão? O lúmpen se tornasse aristocracia? E se o Outro se tornasse o Igual? Não surpreende que a França, palco de tantas revoluções, seja cenário desta fábula em que um filho das sarjetas manipula um órfão burguês para atingir liberdade, igualdade e fraternidade. Sem embargo, a história do rato Remy é a história de todos que buscam. Logo, de todos que sonham. Logo, de todos nós.

Harry Potter e a Ordem da Fênix

Filed under: cinema — buarque @ 6:20 pm

Bagdá ou Rio? Ex-soldados de Saddam ou atletas do Pan? Mouros ou louros? Não há como não ver no mais recente episódio da saga potteriana (salvo, é claro, se o espectador ainda for alvo fácil do “target-audience” juvenil) um caleidoscópio dos embates clássicos da alma travestidos em conflitos pós-modernos. Ou será o oposto?

Nas quadras militarizadas de Bagdá, nas quadras poli-esportivas do Rio, nas quadras de quadribol, o palco das angústias humanas se desfaz e é refeito a cada galope de um soberbo Radcliffe – cujas recentes aventuras eqüino-teatrais mereceriam um autêntico ouro pan-americano.

300

Filed under: cinema — buarque @ 5:38 pm

O tempo passa, mas também é ilusório – ensinou Albert Einstein. A vida se encaminha muitas vezes diluída nas questões da modernidade. Os parâmetros se desfazem, é difícil encontrar um norte. Questões antigas – democracia, soberania, liberdade, a afirmação dos valores de um povo – ressurgem diante das nações como o fizeram em outros tempos. A globalização a tudo confunde e exige respostas a novos e a antigos desafios. Talvez nem tão novos. Talvez os mesmos de sempre. A diferença fundamental é que a luta pela liberdade já não ocorre de dorso nu e tanguinha.

Maria

Filed under: cinema — buarque @ 5:37 pm

Donde emanam as transmutações mais perversas do ser, Abel Ferrara bebe. Do sagrado-profano inteiro (ir e vir), também. Por conta desse microcosmo cabal, nada mais natural do que extrair da Bíblia sua estória mais crucial.

“Maria” (2005), é o apogeu da substancialidade travestida de conforto. De um lado, uma atriz acuada (Juliette Binoche) que resolve buscar sua redenção espiritual. De outro,  um apresentador de tevê atormentado (Forrest Whitaker) com sua existência vulgar, que toma forma em um conflito envolvendo sua esposa grávida (Heather Graham) e a questão da fé. Numa posição aleatória deste triângulo isósceles, um diretor de cinema sem escrúpulos (Matthew Modine, excelente), que vai tentar impôr sua visão do milagre de Jesus de forma branda, porém contundente.

É o bastante para a formação de um pathos residual. Mímico do seu próprio desassossego, Ferrara explode uma miríade de significantes ali, bem em frente ao espectador. O que coletar deste manancial retórico é missão gloriosa que é transferida ao eu-observador.

Baixio das Bestas

Filed under: cinema — buarque @ 5:25 pm

O horror do abuso ou o abuso do horror? O caldo da cana é metáfora de secreções profanas na aridez ética da Terra Brasilis. Claudio Assis aborda a sevícia tupiniquim com deslumbramento adolescente em “Baixio das Bestas” (2006), mas nem a beleza plástica livra o autor e as personagens da cretinice moral. A fala “Traz a manteiga que hoje eu tô comendo é cu” ganha reverberação multifacetada em mais uma pungente interpretação de Nachtergaele, ao passo que a nudez massacrada das atrizes reinventa o conceito da masturbação misógina.

Regininha Poltergeist – Perigosa

Filed under: cinema — buarque @ 4:30 pm

A premissa de “Regininha Poltergeist – Perigosa” é que a realidade há tempos transmutou-se numa questão aparentemente simples e, contudo, nada fácil de responder: o que é o âmago? A história, apesar de se valer de parcos recursos dramáticos, não deixa de ser uma investigação filosófica. O diretor se abstém de questões mais complicadas, mas é inegável que a escolha de Kid Bengala como ator principal pressupõe, numa ironia certamente fácil, a intenção de ir fundo em algumas questões.

Scoop

Filed under: cinema — buarque @ 3:52 pm

Até onde irá a verve humana na criação cinematográfica? Woody Allen toma emprestada a beleza jovial e naïve de Scarlett Johansson para comprovar que é possível, sim, nos reinventarmos. Com a energia ninfal desta namporadinha do Brooklyn, o veterano desta vez se abstém de suas características alusões hebraicas. A trama flerta mais com os paradigmas dos romances policialescos britânicos e nos coloca o questionamento: vale a pena enganar a morte por um mero furo jornalístico?

Transformers

Filed under: cinema — buarque @ 3:47 pm

Peças articuladas e vidas em transformação. Transformar-se ou transmutar-se? Mais que reles semântica, a indagação está no cerne da nossa experiência mesma. “Transformers” (Michael Bay, 2007) responde à sua maneira, empinando o puro-sangue dos gráficos computadorizados. No milagre do primeiro carro, o rito de passagem do adolescente acessando
a carne da mulher fatal. Nos vértices extraterrenos do Cubo, o paroxismo da máquina e a certeza: o Bem e o Mal, em contato, dão curto-circuito.

Duro de Matar 4.0

Filed under: cinema — buarque @ 3:47 pm

Duelos. No microcosmo das relações familiares ou no macrocosmo das intrigas políticas, o que se dá é o enfrentamento encarniçado da célula com o organismo. Sob a égide da ameaça terrorista, a violência eclode e o heroísmo assoma para salvaguardar a essência do humano. Sucumbe a tecnologia, impõe-se a bravura resignada de McClane. No balé bombástico da jamanta com o caça a jato, sobrevive apenas o policial num torvelhinho de combustão e sangue em que dublês de carne e osso abafam o virtuosismo dos efeitos especiais. O espectador vibra: há salvação.

Réquiem para Bergman

Filed under: cinema — buarque @ 3:46 pm

Seus filmes buscavam a essência além da banalidade epidérmica do cinema, expondo uma (des)humanidade reconfortante, porém oca. Em cada fotograma, o que se via era uma sociedade cada vez mais autocrática, mas assustadoramente menos autocrítica.

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